Vivendo o Tao

Você está certo

por Derek Lin

Um dia, o sábio estava tomando chá com um discípulo quando ouviram uma tumulto na rua. Dois homens discutiam sobre alguma coisa. As vozes se tornavam cada vez mais altas. Nenhum dos dois estava disposto a ceder.

Depois de muita gritaria, um deles saiu furioso. O outro ficou parado, fervendo de raiva. Depois de algum tempo, entrou para falar com o sábio.

“Mestre, o senhor tem de resolver este assunto para nós. Eu tentei raciocinar com ele, mas ele não me ouvia. Ele é extremamente teimoso.”

O sábio mostrou que estava disposto a ajudar, e o homem começou a descrever seu ponto de vista. Explicou meticulosamente porque sua posição era obviamente a mais razoável e a mais correta.

“Então, o que o senhor diz, Mestre? Eu estou certo, ou é ele que está certo?”

“Mas é claro que você está certo!” disse o sábio. O homem ficou radiante, e saiu de bem humorado.

Pouco depois, o homem que saíra furioso voltou, também procurando pelo sábio.

“Mestre, o senhor provavelmente me ouviu discutindo há pouco. A posição dele está baseada inteiramente em uma lógica falsa, enquanto minha posição é sustentada por evidências sólidas. O senhor pode resolver este assunto para nós?”

O sábio meneou a cabeça concordando, e o homem começou a apresentar seu lado da história. Apontou cuidadosamente as falhas no pensamento de seu oponente, e e enumerou as provas suportando seu ponto de vista.

“Então, o que o senhor pensa, Mestre? Quem está certo e quem está errado?”

“Mas é claro que você está certo!” disse o sábio. O homem ficou radiante, e saiu de bem humorado.

O discípulo, que permecera quieto todo esse tempo, expressou sua perplexidade: “Mestre, como se explica? Se ele está certo, o outro está errado. Mas o senhor disse que o outro estava certo, de modo que este tem de estar errado. Uma posição é verdadeira, e seu oposto é falso. As duas não podem ser verdadeiras. Estou certo?”

“Mas é claro que você está certo!” disse o sábio.

Desejar estar certo é uma das nossas maiores obsessões na vida. Parece que temos uma necessidade desesperada de provar que estamos certos, custe o que custar. Se alguém discorda, gastamos uma enorme quantidade de energia física, mental e emocional para forçá-lo a ver as coisas do nosso modo. Discutimos com ele.

Isto funciona? Em geral, não. Discussões raramente resultam em concordância. Na maior parte das vezes, apenas afasta as pessoas. Você pode ter o raciocínio mais rigoroso e os mais sólidos argumentos imagináveis, e mesmo assim fracassar em convencer a outra parte, porque no fundo as discussões não são sobre os fatos. Elas são sobre a profunda necessidade humana de estar certo, apesar dos fatos.

É por isto que os sábios abstém-se de discussões. Discutir exige muito esforço e traz pouco resultado. Quanto mais se força um ponto de vista sobre uma pessoa, mais ela resiste. Portanto, discussões e debates são o exato oposto do wu wei.

O capítulo 81 do Tao Te Ching o expressa claramente:

Os que são bons não discutem
Os que discutem não são bons

Não é que os sábios suprimam ou neguem o  ímpeto para discutir. Eles o transcendem. Vêem a futilidade de tentar impor sua opinião sobre uma audiência não receptiva. Já que é um desperdício de energia, desviam sua atenção das discussões e ficam perceptivostivos e abertos a outras perspectivas além das suas.

Como os sábios são desapegados e observadores, têm a habilidade de se mover entre vários pontos de vista. A maior parte das pessoas só conseguem ver a verdade de sua perspectiva. Para os sábios, esta perspectiva limitada é como uma visão em túnel, ou mesmo os olhos vendados. A capacidade de percepção mais ampla dos sábios lhes permite ver que dois lados podem estar certos. De fato, reconhecem que há tantas  perspectivas válidas quanto são as pessoas no mundo, e que cada perspectiva é válida para uma pessoa em uma certa situação.

O conceito convencional do absolutamente certo e do absolutamente errado é ilusório Pode ser reconfortante para aqueles que necessitem de uma visão simplificada em branco e preto de uma realidade complexa, que apresenta muitos tons de cinza, mas pode levar à inflexibilidade, à estreiteza mental, ao dogma ou até ao fanatismo.

Não é que os sábios não tenha opinião própria, muito pelo contrário. Os sábios não só têm opinião como tendem a ser excepcionalmente bem informados, precisamente porque são capazes de ver as coisas sob vários ângulos. Assim, longe de não distinguir o certo do errado, os sábios são rigorosos e disciplinados na manutenção de suas noções de certo e errado.

O ponto crucial é que os sábios são igualmente rigorosos e disciplinados em se abster de forçar suas próprias noções sobre os outros. Afinal, por que haveria um sábio de discutir com você se ...  “é claro que você está certo”?