Vivendo o Tao

O Baile

por Derek Lin

É uma noite muito agradável. Você anda até a entrada do salão de baile. Como um membro da União Musical (UM), você foi convidado para o baile. Você não sabe muito sobre danças de salão, mas está ansioso por aprender.

É a primeira vez que você vai a um evento desse tipo, de modo que está um pouco nervoso. Felizmente, seus amigos vão encontrá-lo no salão. Alguns deles já estiveram em muitos bailes, e poderão ajudá-lo a se sentir mais à vontade
.
O salão de baile é colorido e alegre. Para qualquer lado que se olhe, há luzes brilhantes e decoração caprichada. Candelabros no teto iluminam através de  um sem-número de pontos brilhantes.

A UM parece ter recursos ilimitados para poder proporcionar tudo isso, mas não parece haver ninguém atuando como diretor.

Você é parte de uma superalma – a soma de todos os espíritos humanos do passado, do presente e do futuro. Como um membro dessa totalidade, tem o direito e o privilégio de entrar no plano material e participar da experiência da existência mortal.

Tendemos a descer para o plano material em grupos para suporte mútuo. Almas jovens freqüentemente confiam em espíritos mais experientes para guiá-los. À medida que ganham experiência, passam a oferecer assistência àqueles para os quais a vida ainda é uma experiência nova.

É da natureza do mundo material oferecer distrações brilhantes, coloridas e tentadoras. As imagens e sons parecem infindáveis. Qualquer que seja sua origem, parece ser inexaurível.

O começo do capítulo quatro do Tao Te Ching expressa estes fatos:

O Tao é o vazio
Utilize-o, ele não se enche
Tão profundo! Parece ser a fonte de todas as coisas

A fonte da criação é difícil de compreender. Apesar de parecer ilimitada, não há nada que possamos apontar como sua origem. Nem há ninguém que possa ser essa origem. É como se tudo viesse de um profundo e imperscrutável vazio.

Observando todas as coisas à nossa volta não podemos deixar de perguntar como esse maravilhoso espetáculo veio a existir. Você  pergunta: ”De onde tudo isto veio? Quem fundou a UM? Quem começou o baile?”.

Um de seus amigos pensa profundamente antes de responder: “Fiz esta pergunta a várias pessoas, e obtive respostas conflitantes. Algumas dizem que um homem fundou nossa organização há muito tempo atrás, e se responsabiliza por ela desde então, como Diretor Emérito da União Sonora1, ou DEUS. Outros dizem que DEUS é uma mulher, e não um homem; ainda outros dizem que não há evidência que esse diretor exista – de acordo com elas, o salão de baile sempre existiu, e nos cabe apenas aproveitá-lo.”

“Quem você acha que está certo?”

“Bem, esta não é uma situação onde um lado tem de estar certo, e os outros errados, até porque há muitas possibilidades além dessas. Por exemplo, a União Musical pode ter evoluído a partir de reuniões informais de amigos que apreciam a música e a dança. Se for isto, todas as coisas que vemos aqui não são o resultado de um esforço individual, nem surgiram espontaneamente através de um processo aleatório.”

“Se pensarmos com maior cuidado, podemos reconhecer que existe uma verdade mais importante que qualquer discussão sobre a existência do Diretor Emérito da União Sonora. Quer a UM tenha sido fundada por uma ou muitas pessoas, ou por ninguém em particular, podemos afirmas que a força por trás de sua fundação foi o amor à música.

“O amor à música tinha que existir antes que qualquer coisa significativa pudesse acontecer. Por exemplo, se realmente existe um Deus, este cargo somente seria preenchido porque o amor à música motivou alguém para ocupa-lo. Portanto, podemos afirmar que o amor “a música é a causa primária – não importando quem esteja certo."

Qual é a origem da vida, do universo, de tudo? Quem ou o que é o seu criador original? Estas são questões profundas que as pessoas se perguntam desde o início da humanidade. Teístas e ateus tem tentado responder – e freqüentemente se envolvem em acalorados debates.

Os cultivadores do Tao acreditam que o Tao é o processo que torna a existência e a realidade possíveis. Mais precisamente: chamam de Tao ao processo que originou a existência e a realidade, qualquer que tenha sido. Isto significa que o Tao é a inegável e sempre presente realidade, quer tenha vindo de uma entidade sobrenatural ou a partir da interação de leis naturais.

Da mesma forma que o amor à música tinha de existir antes que a União Musical pudesse ser fundada, o Tao também teve de existir antes que o universo pudesse ser criado. Esta observação  permanece válida mesmo para aqueles que adotem a posição teísta que acredita num Ser Supremo como o criador.

Os cristãos diriam que Deus criou o universo por um ato de amor ou vontade divinas. Para que isto possa acontecer, o amor ou a vontade divinas teriam que estar presentes antes que o ato do criador se realizasse. Simplesmente não pode ser de outra maneira.

Com isto em mente, podemos agora observar o fim do capítulo quatro do Tao Te Ching:

Tão Indistinto! Parece existir
Não sei de quem é filho
Sua imagem antecede a Deus

A última linha pode parecer enigmática à primeira vista, mas agora faz sentido. Da mesma forma que o cargo de Deus só se tornou possível pelo amor à música, Deus como o criador é um conceito que só pode emergir do Tao. É isto que significa dizer que a imagem do Tao precede a Deus.

O Tao é indistinto porque não é personificado, da mesma forma que o conceito de amor não precisa ser personificado. Ao contrário de Deus, o Tao não é tem semelhança com os homens, nem emoções humanas. É a causa primária – e portanto não podemos saber o que a originou (de quem é descendente), da mesma forma que não podemos dizer de onde vem o amor.

Esta compreensão nos eleva acima da discussão sobre a existência de Deus. É uma iluminação que revela a verdadeira insignificância dos debates entre teístas e ateístas. Não importa quem esteja certo – a verdade transcendental do Tao permanece eterna... e eternamente imutável!

Nota do tradutor para português

1 - Tive de trocar musical por senora para manter as iniciais.