Vivendo oTao

Criação e  destruição

por Derek Lin

Chuang Tzu é o segundo maior mestre da sabedoria taoísta, depois de Lao Tzu, Sua importância pode ser aferida por seus textos terem seu nome. Assim quando nos referimos a Chuang Tzu, podemos estar referindo ao antigo texto ao a seu autor.

Uma das passagens mais conhecidas de Chuang Tzu começa assim:

Quando se quebra alguma coisa, cria-se coisas.
Quando se cria alguma coisa, destrói-se coisas.
Não se cria nem se destrói coisas materiais.
No fundo, estes conceitos se unem em um só.

À primeira vista o texto pode parecer confuso. “Criar” e “destruir” parecem ações completamene opostas, mas Chuang Tzu afirma que se unem num só. Como pode ser possível? Parecem tão distantes como dois conceitos podem ser!

Chuang Tzu explica:

Apenas os cultos sabem que se unem num só
Portanto, em lugar de discutir isto com seus preconceitos,
Aborde-a de um modo comum.

Aqueles que a abordam de forma comum apenas aplicam a idéia.
Aqueles que aplicam, unem-se com ela.
Aqueles que se unem,a atingem.
Este conhecimento facilmente atingido não está longe da verdade.

Chuang Tzu está antecipando nossa pergunta e sugerindo a melhor forma de compreender este conceito. Vamos adotar seu conselho e imaginar alguns exemplos para facilitar a compreensão do paradoxo.

Por exemplo, o que é preciso fazer para criar móveis? Primeiro, temos que cortar (quebrar) árvores para obter madeira! O que um escultor precisa fazer para criar uma bela estátua? Ah, precisa aplicar o cinzel à pedra e quebrar pedaços!

Nos dois exemplos, a destruição ocorre para permitir o processo de criação. Não se pode ter um sem o outro. As duas operações, aparentemente opostas, são na verdade dois lados de uma mesma moeda.

Quando se aplica a “abordagem comum” como Chuang Tzu sugere, verificamos que o paradoxo desaparece. Podemos facilmente nos ligar à idéia e atingir uma compreensão clara – exatamente como Chuang Tzu afirma.

Tudo flue naturalmente
Atingir este estado e nem perceber,
É o que chamaríamos o Tao.
Exaurir sua mente tentando unificá-los,
Sem compreender que são o mesmo,
É o que chamaríamos “três pela manhã”.
E o que é “três pela manhã”?

Próximo ao início desta passagem Chuang Tzu alerta que o melhor meio para atingir esta sabedoria é não entrar em um debate intelectual usando nossos preconceitos. Agora, expande esse ponto e nos adverte que ele apenas levará nossa mente à exaustão, e ilustra o ponto com uma história:

Um homem que alimentava macacos com castanhas lhes disse:
“Três porções pela manhã, e quatro à tarde”.
E todos os macacos ficaram bravos.

E o homem disse:
“Tudo bem. Quatro de manhã e três à tarde”.
E todos os macacos ficaram contentes.

O alimento e quantidade não variaram,
e mesmo assim os resultados foram raiva e contentamento
Só por causa de uma distribuição diferente.

Os macacos ficaram bravos no início porque três porções pela manhã e quatro a tarde parecia ser injusto. O tratador, sabendo como pensavam, acalmou-os apenas trocando a ordem.

Para os macacos, a nova distribuição pareceu diferente, e portanto tinha de ser diferente. Eles não perceberam que a diferença era apenas superficial. Sua cota diária de sete porções não mudou em nada.

Podemos comparar os macacos da história a nós; o tratador pode representar a realidade de acordo com nossas percepções. Como a maioria de nós tem uma percepção tão pobre como a dos macacos, freqüentemente não percebemos a unidade fundamental da existência. Vemos separação e divisão mesmo quando são ilusórias.

Por exemplo, nos apegamos à vida (criação) e tememos a morte (destruição) por que não conseguimos ver que os duas formam um todo único. O processo da vida se realiza ao mesmo tempo que o da morte. Não se pode ter um sem ter o outro.

Se alguma coisa nunca esteve viva, não pode morrer. A morte nos espera apenas porque neste momento estamos gloriosamente vivos. Sem a morte, não poderíamos ter esta vida que tanto valorizamos. Assim, a vida e a morte são dois lados de uma mesma moeda. Quem não consegue ver isto está no mesmo nível dos macacos da historia, facilmente enganados que duas coisas são fundamentalmente diferentes apenas porque são apresentadas de forma diferente.

Quem puder perceber isto começará a compreender porque os verdadeiros cultivadores do Tao não temem a morte. Eles não “conquistam” a morte, porque não há nada a conquistar ou superar. Simplesmente aceitam a morte tão inteiramente quanto aceitam a vida. Funerais não os deixam nervosos, nem ficam obcecados sobre a vida futura.

Eles vêem a verdade – que a vida e a morte são processos naturais que ocorrem no momento apropriado por razões apropriadas. Da mesma forma que a criação e a destruição, se unem num só processo, e fluem naturalmente. É o que chamaríamos de Tao!