Vivendo o Tao

Cultivando o Tao

por Derek Lin

Na antiga China, há muito tempo atrás, viviam dois irmãos. Os dois trabalharam muito e acumularam muitas riquezas.

Um dia estavam viajando, e começou a chover. Como estavam afastados de qualquer cidade, procuraram um abrigo. Encontraram um templo abandonado num cemitério próximo.

Entraram no templo e viram que um velho já estava lá. Observaram que tinha um pequeno gongo em uma das mãos. Curiosos, perguntaram para que servia.

O velho disse: ”Sou um mensageiro. Meu trabalho é ir até a porta das pessoas que devem morrer em seguida, e tocar o gongo três vezes. É o sinal para que morram.”

Os irmãos ficaram surpresos, e pensaram que o homem fosse um louco.

Vendo sua expressão, o velho disse: “Sei o que estão pensando, Vocês não me acreditam. Bem, acontece que vocês dois vão morrer na próxima semana. Verão por si mesmos quando sua hora chegar.” Em seguida, desapareceu bem na frente deles.

Os irmãos ficaram chocados. Continuaram seu caminho depois que a chuva parou, mas estavam perturbados por esta estranhíssima experiência.

As palavras do velho pesaram muito para o irmão mais velho. Ele ficou pensando sem parar “Eu trabalhei dura para acumular toda esta fortuna, mas para que ela serve? Eu só tenho alguns dias, e depois terei ido.” Perdeu o apetite, não podia dormir, e rapidamente ficou doente.

Quando o dia chegou, estava muito doente para sair da cama. Ouviu o som do gongo sendo tocado três vezes, exatamente como o velho dissera.

As palavras do velho também pesaram muito para o irmão mais novo. Ele ficou pensando “Eu trabalhei dura para acumular toda esta fortuna, mas para que ela serve? Eu só tenho alguns dias, e depois terei ido.”

Em seguida pensou: “Não há tempo a perder. Eu preciso fazer alguma coisa com esta fortuna, e rápido!” E correu para gastá-la. Foi a sua cidade, para dar dinheiro para causas nobres e para obras públicas.

Os habitantes ficaram surpresos com sua generosidade, e também muito gratos. Reuniram-se e decidiram fazer uma celebração em sua homenagem. Foram até a frente de sua casa, e fizeram uma grande festa. Músicos tocaram, as pessoas dançaram e brindaram em sua homenagem. Todos se divertiram muito.

O velho apareceu com seu gongo. Apesar de ver que o local estava cheio e barulhento, tinha um trabalho a realizar. Chegou tão perto da casa quanto possível, e tocou o gongo três vezes.

Não foi ouvido por ninguém. As pessoas presumiram que fosse um dos músicos. O irmão mais novo estava tão ocupado conversando com as pessoas, recebendo seus agradecimentos e apertando mãos que nem percebeu que o velho estava lá.

O velho tentou de novo. E de novo. Não estava tendo sucesso, e finalmente ficou frustrado e foi-se.

Uma semana depois o irmão mais novo estava mais ocupado que nunca. As pessoas o viam como um líder da comunidade, e muitos queriam trabalhar com ele em vários projetos, ou ouvir sua opinião sobre os assuntos de interesse comum.

Entre um e outro compromisso, o irmão mais novo surpreendeu-se com um pensamento: “O velho não devia aparecer em minha porta? Bem não tenho tempo para pensar nisso. Ainda há muitas pessoas que tenho de ajudar.”

Esta história contém vários ensinamentos. O velho com o gongo simboliza a inevitabilidade da vida levar à morte. Se pensarmos nisto, todos nós podemos esperar a visita do velho em algum ponto do futuro. Podemos não saber quando virá, mas sabemos que virá cedo ou tarde. É um destino do qual não podemos escapar.

Podemos reagir de diferentes formas. Alguns, como o irmão mais velho, se curvam à sua inevitabilidade. Isto nos tira a energia. Podemos não ficar fisicamente doentes, mas podemos certamente ser afetados por uma doença espiritual. Esta doença se manifesta por tédio e inércia. Ficamos entediados e não temos vontade de fazer coisa alguma. Qual é o propósito? Para que se perturbar?

Outra forma de reagir é mais próxima do que fez o irmão mais novo. Ele reconheceu a inevitabilidade do mesmo destino, mas decidiu fazer algo a respeito. Em lugar de admitir a derrota, o próprio fato da vida ser limitada o estimulou a vivê-la inteiramente.

Observe que apenas um pensamento foi diferente para os dois. Isto mostra a possibilidade de um instante de clareza, uma conclusão súbita em único momento ser tudo o que se necessita para alterar sua vida para sempre. Esta é a natureza da iluminação – aparentemente tão distante que estará sempre além do alcance... mas ao mesmo tempo junto a nós.

A riqueza dos irmãos representa todas as coisas que acumulamos ao longo da vida. Não apenas os bens materiais, mas também a bagagem mental que levamos conosco. É uma riqueza que na verdade atravanca nosso ambiente e nossa mente: as velas revistas que guardamos e nunca mais lemos; o ressentimento que guardamos contra alguém, etc.

As ações do irmão mais novo – gastando sua fortuna, dando aos outros, contribuindo para o bem comum – são simbólicos do cultivo do Tao. Quando cultivamos o Tao, damos incondicionalmente, simplificamos nossa vida, e focamos nas outras pessoas em lugar de nós mesmos. Quanto mais o fazemos, mais poderosos nos tornamos espiritualmente, e experimentamos mais alegria na vida.

É exatamente o que o capítulo 81 do Tao Te Ching nos ensina:

Os sábios não acumulam
Quanto mais fazem pelos outros, mais têm
Quanto mais dão para os outros, mais ganham.

Estas linhas, consideradas em conjunto com a história, apontam para uma poderosa verdade: O cultivo do Tao nos permite superar o destino. Quando o velho apareceu na casa do irmão mais novo, ele não prestou atenção – ele estava doando a sí mesmo, totalmente focado em seus convidados, e inteiramente comprometido em viver a vida ao máximo. Nestas condições, o velho não tinha poder sobre ele.

Para nós é a mesma coisa. Cultivar o Tao não é composto somente de meditações solitárias e retiros nas montanhas. É também sobre a comunidade. É também sobre interagir com as pessoas, percebendo nossa unidade com elas, e sentindo a energia revigorante que resulta da interação pessoal. Quanto mais fazemos pelos outros, maior é o contentamento e felicidade que experimentamos; quanto mais damos aos outros, maior satisfação e alegria recebemos.

Quando vivemos estes ensinamentos a vida se torna a festa que deve ser, como a da frente da casa do irmão mais novo. Quando a negatividade chegar à sua porta, não terá poder sobre você. A energia positiva que gerou vai bloqueá-la, e ela não terá alternativa senão ir embora e deixá-lo em paz.

De fato, você nem sequer vai perceber que o karma veio e foi – da mesma forma que o irmão mais novo, estará muito ocupado celebrando a vida!