Vivendo o Tao

O Arquiteto

por Derek Lin

Era um vez um arquiteto que tinha trabalhado muitos anos em uma companhia de construção. Ao longo de sua carreira projetou e construiu muitas casas e edifícios para a companhia; agora, estava prestes a se aposentar.

Um dia o presidente da companhia chamou-o a seu escritório, e disse: “Você trabalhou muito bem para nós ao longo de tantos anos; agora, tenho um último trabalho antes que se aposente.”

"Quero que projete a melhor casa possível, e cuide do projeto do começo ao fim. Já comprei um ótimo terreno. Todo o que você tem a fazer é comprar os melhores materiais e contratar a mão de obra mais experiente para a construção. Não economize! "

O arquiteto encarou a situação como uma oportunidade. Se ele seria a única pessoa responsável pelo projeto, ninguém ficaria sabendo se tomasse algumas liberdades aqui e ali. Agora que estava para se aposentar, esta seria sua última chance para fazer um dinheirinho extra.

O arquiteto requisitou um orçamento generoso, mas gastou apenas uma pequena parte, utilizando os materiais e a mão de obra mais baratas que encontrou. Para economizar em mão de obra, terminou o mais rápido possível. Em seguida, avisou o presidente que tinha terminado seu último trabalho.

“Ótimo!” disse o presidente. “Vamos fazer uma visita.”

Quando chegaram à casa, o arquiteto ficou surpreso ao ver todos os outros funcionários da companhia no local, admirando e comentando seu projeto. Não se assustou, porque a casa estava fechada e ninguém poderia entrar para uma exame mais detalhado. O arquiteto conhecia todos os truques do ramo, e usou-os para fazer com que a casa parecesse maravilhosa do lado de fora. Não estava preocupado.

O presidente reuniu todos, e disse: “Como sabem, nosso arquiteto trabalhou muito bem para nós todos estes anos, e agora está para se aposentar. Esta casa é sua última obra-prima.”

Ofereceu as chaves para o arquiteto, e continuou: “A melhor forma de agradecer por todos os seus anos de dedicação ao trabalho é presenteá-lo com esta obra-prima – o perfeito presente de aposentadoria!”

Todos aplaudiram, enquanto o arquiteto  estava paralisado, sem acreditar no que acontecia.

Quando assumimos uma forma mortal e vimos para este mundo, temos uma oportunidade especial. Da mesma forma que o arquiteto assumiu a tarefa de construir a melhor casa possível, temos a oportunidade de criar a melhor vida possível.

O plano material é o lugar mais importante para trabalhar nessa possibilidade. A tarefa não é assim tão difícil, porque temos o poder de obter os melhores recursos disponíveis, bem como dirigir muita energia ara o projeto. Temos tudo o que é necessário para um excelente serviço. A ordem é clara: não economizar na construção de uma grande vida!

A dificuldade é que rapidamente percebemos que somos os responsáveis pelo projeto de construção da vida. Somos os únicos responsáveis do início ao fim. Por um lado, isto significa que podemos fazer o projeto como nos agradar, e administrar o trabalho como acharmos conveniente. E uma liberdade que pode ser maravilhosa e estimulante. Por outro lado, também significa que não há ninguém ao nosso lado exigindo o melhor de nós ou impondo disciplina. É por isto que freqüentemente damos um jeitinho ou somos negligentes mesmo quando não devíamos. Se ninguém esta olhando, o que é que custa?

Caímos na armadilha de nos comportar como se estivéssemos nos construindo para o benefício de outros. Criamos uma imagem para que os outros nos percebam. Talvez estudemos diligentemente doutrinas religiosas para parecer pios; talvez corrijamos os outros para cultivar uma aparência de conhecimento; talvez procuremos ostentar  indiferença para mostrar como somos firmes e frios.

Esta armadilha reforça a tendência para ceder à inércia ou escolher o caminho mais fácil. Como estamos apenas interessados em parecer bons para fins externos, não importa o quanto sejamos relapsos ou descuidados internamente. A aparência de piedade pode ser uma máscara para a falta de verdadeira compreensão espiritual; a afirmação de conhecimento pode ser uma dissimulação para a ignorância arrogante; a ostentação de ignorância um disfarce para o desespero oculto.

Um dia poderemos despertar para a constatação de que todo o tempo em que pensávamos estar trabalhando para os outros na verdade estávamos trabalhando para nós mesmos. Da mesma forma que o arquiteto, quando damos de nós menos  do que somos capazes, não estamos enganado a outras pessoas – estamos fraudando a nós mesmos.

Felizmente somos diferentes do arquiteto em um ponto: não estamos às vésperas da aposentadoria. Quando descobrimos que somos de fato nosso próprio chefe e cliente, podemos parar de nos sabotar como o arquiteto fez consigo.

Neste nível de consciência não importa mais que alguém possa estar nos olhando ou o que podem pensar de nós. Persistimos no cultivo espiritual também – ou melhor, especialmente – quando ninguém pode ver o que fazemos.

As últimas linhas do capítulo 59 do Tao Te Ching ilustram claramente este ensinamento:

Com este princípio essencial de poder, podemos ser eternos
Isto é chamado raízes profundas e fundação firme
O Tao da longevidade e da visão duradoura.


Se focarmos no mundo exterior, como a maior parte das pessoas faz, as fachadas que construímos não podem subsistir por um longo tempo. Se dirigirmos nossa atenção para o interior, como fazem os sábio do Tao, nos ligamos ao princípio do poder.

Uma casa solidamente construída a partir do interior é verdadeiramente forte, e suporta o teste do tempo. Da mesma forma, aquele que planta raízes espirituais profundas e estabelece fundações espirituais firmes dentro de si mesmo também está construindo de dentro para fora. Possuem força verdadeira, e podem ser eternos.

Com o Tao para nos guiar, nos tornamos literalmente os arquitetos do próprio destino. Com o melhor material – amor, gratidão, alegria, humildade – e a equipe mais experiente – a sabedoria espiritual dos sábios – podemos tornar nosso destino uma verdadeira obra-prima!