Vivendo o Tao

Os escudos

por Derek Lin

Um guerreiro saiu para dar uma volta em um dia ensolarado. À medida que percorria seu caminho na floresta, viu um outro guerreiro que também passava. Saudaram-se amigavelmente.

Subitamente, um brilho chamou suas atenções. Viram dois escudos no chão, perto dali. Um era prateado, e o outro dourado. Mesmo à distância era possível perceber que eram de ótima qualidade.

“Que achado!” disse o primeiro guerreiro. “Ficarei com o dourado. Você pode ficar com o prateado." E se encaminhou para eles.

“De forma alguma, eu os vi primeiro. O dourado é meu. Posso lhe deixar o prateado.” O segundo guerreiro também foi em direção aos escudos, e o primeiro acelerou para acompanhá-lo.

“Obrigado por sua generosidade, mas não é necessária. Eu apresentei minha reivindicação  primeiro, e portanto o dourado é meu por direito. Você deve ficar contente por deixar-lhe o prateado." Apressaram o passo.

“Sua reivindicação não conta, porque tenho uma posição mais alta. Assim, deve ser como eu determinar. Ouro para mim, prata para você.” Os dois começaram o correr ao máximo em direção aos escudos.

“Sua posição nada significa, pois servimos a senhores diferentes. Estas terras pertencem a meu senhor. Eu devo pegar o dourado para meu senhor; o de prata é adequado para o seu.” Eles estavam correndo com a mesma velocidade; nenhum deles chegaria antes do outro.

"Esta floresta não pertence a ninguém. Sou um espadachim melhor, e afirmo que o escudo dourado é meu. Se quiser contestar minha reivindicação, terá de enfrentar minha espada.” O guerreiro sacou a espada, e seu oponente fez o mesmo.

Seguiu-se um combate feroz. Os dois guerreiros descobriram que eram espadachins de mesmo nível. Nenhum conseguia vantagem sobre o outro. Tornou-se uma competição de resistência – o primeiro a se cansar e vacilar perderia o combate, e portanto o escudo dourado.

Infelizmente os dois guerreiros tinham a mesma resistência. Depois de combater por mais de uma hora, ambos ficaram exaustos. Mesmo assim continuaram até nenhum poder continuar em pé. Caíram no chão ao mesmo tempo, arquejantes e lutando para respirar, mas ainda se olhando belicosamente.

Puderam então ver a causa do conflito. Olhando deitados, podiam ver os escudos de lado. O dourado parecia ter o lado de baixo prateado, e o prateado ...

“Você está pensando o mesmo que eu?” disse um dos guerreiros.

“Vamos examinar mais de perto.”

“Sem tretas.”

“De acordo.”

Os dois guerreiros usaram suas espadas para virar os escudos. Eram como suspeitaram. Os dois eram idênticos – dourados de um lado, e prateados no outro.

Os guerreiros concluíram que sua batalha não tivera o menor sentido. Afinal, os dois escudos eram iguais, e cada um poderia ter pego um e ficado completamente satisfeito. Todo os esforço e disputa, toda a contenda verbal e o combate físico foram por nada.

Alguma vezes não somos como os guerreiros? Lutamos com outras pessoas, procurando ficar à frente ou obter alguma vantagem, mas para quê? Depois de ficarmos exaustos e estressados pela discórdia, pelo conflito e pela competição, não descobrimos que o objetivo pelo qual lutamos é completamente sem sentido?

Outra lição desta história é que a hostilidade e o mal freqüentemente ocorrem quando somente podemos ver um lado da questão. A discórdia levanta sua repugnante cabeça quando os dois lados estão plenamente convencidos de que tem razão. Cada lado se agarra teimosamente à sua própria perspectiva, enquanto se recusa a  – ou é incapaz de – ver o outro lado.

O que aconteceria se pudéssemos ver mais do que apenas nosso lado? Sendo capazes de perceber como os outros vêem a mesma coisa, podemos compreender, em primeiro lugar,  como o conflito começou. Esta compreensão mais ampla leva a uma solução melhor – muito provavelmente uma que não exija conflito ou violência.

É por isto que os cultivadores do Tao sempre procuram mais de uma perspectiva. Sabem que quando podem ver alguma coisa sob vários pontos de vista, ganham maior compreensão e sabedoria. Assim, da mesma forma que os guerreiros, chegam a conclusão que conflito e luta são o oposto do wu wei – e completamente desnecessários.