Vivendo o Tao

A pedra

por Derek Lin

Uma vez um jovem discípulo propôs a seguinte questão a um grande sábio: “Mestre, qual é o valor do Tao?"

O sábio deu uma explicação, mas o discípulo não entendeu.

O sábio sabia que explicações através de palavras nem sempre são adequadas. O melhor meio de cultivar o Tao é o aprendizado pela experiência direta.

Pegou uma pedra em sua mesa, e escreveu um endereço em um pedaço de papel. “Pegue esta pedra e vá até este endereço. Quando chegar lá, quero que pergunte às pessoas quanto eles pagariam pela pedra. Não a venda; apenas descubra quanto as pessoas estão dispostas a pagar.”

O discípulo foi até o endereço, e viu que era um mercado aberto. Havia muitos mercadores apregoando suas mercadorias, e muitos compradores olhando e regateando.

Começando com a pessoa mais próxima, o discípulo mostrou a pedra e perguntou “Desculpe, quanto você pagaria por esta pedra?”

A maior parte das pessoas o ignorou e continuou seu caminho. Algumas o olharam com sarcasmo,  outras riram dele. As poucas que falaram disseram coisas como “nada”, “não, obrigado” ou “saia daqui”. 

Após aproximadamente uma hora, uma senhora teve pena dele, e disse “Talvez possa usá-la como peso para papéis. Aqui tem um real.” Ela ofereceu o dinheiro, mas ele meneou a cabeça e agradeceu.

Ele voltou e contou sua experiência ao sábio: “Mestre, a maior parte das pessoas não tinha nenhum interesse pela pedra. O máximo que consegui foi uma oferta de um real”

“Muito bem” disse o sábio, dando-lhe outro pedaço de papel. “Agora, vá a este endereço e faça  a mesma coisa. Pergunte às pessoas de lá quanto pagariam.”

O endereço era em outra parte da cidade. Chegando lá, viu que era uma loja de jóias. Entrou e viu as vitrines cheias de gemas resplandecentes. Atrás dos balcões os atendentes tinham aspecto sério. Todos estavam com trajes formais.

“O que deseja, meu filho?” perguntou um dos balconistas.

“Ahn.. Eu gostaria de saber quanto pagariam por isto.” O discípulo mostrou a pedra. O atendente  olhou, primeiro surpreso, depois irritado.

“Onde estão seus pais? Esta loja não é para crianças. Saia já. Fora, fora.”

O discípulo pensou: Tudo bem, acho que acabou. É o mesmo resultado que obtive no mercado. Virou-se para sair.

O gerente da loja viu o que acontecia. Olhou a pedra de relance, quando o discípulo já estava na porta. “Espere, deixe-me ver a pedra, meu filho.”

O gerente examinou a pedra. Olhou intrigado, e a seguir arregalou os olhos. Mandou um dos atendentes chamar o joalheiro-chefe na oficina, que ficava nos fundos da loja.

O velho joalheiro chegou, resmungando por causa da interrupção, mas quando via pedra também ficou com os olhos arregalados. Examinou-a demoradamente por todos os lados com uma lente. A seguir devolveu-a ao discípulo, e sussurrou alguma coisa no ouvido do gerente.

Subitamente, o gerente era todo sorrisos. “Meu filho, eu gostei de você, portanto troco sua pedra por este doce. Concorda?”

O discípulo meneou a cabeça. “Eu preciso saber quanto o senhor estaria disposto a pagar por ela.”

“Sei,” disse o gerente. “Que tal dez reais? Fechado?”

“Não senhor, não posso vender a pedra. E agora tenho que ir.” Já tinha sua resposta, portanto era ora de voltar para contar o resultado.

“Espere, eu dou cem reais. É bastante dinheiro, Vamos lá, o que você diz?”

Mais uma vez o discípulo recusou-se a vender e tentou sair. Mais uma vez o gerente aumentou  a oferta. O diálogo continuou até que uma oferta de dez mil reais foi recusada.

“Vamos fazer uma coisa” disse o gerente, ainda sorridente mas começando a suar “Diga-me quanto quer por ela. Faça seu preço”.

“Eu não posso vendê-la por nenhum preço – é o que estou tentando explicar.”

O gerente não teve alternativa senão deixá-lo ir.

O discípulo voltou para falar com o sábio. Estava intrigado. “Mestre, a maior oferta que recebi no mercado foi de um real. Agora as ofertas chegaram a dez mil, e poderiam subir. Como se explica essa enorme diferença?”

O sábio explicou: “Em geral, as pessoas se preocupam com a aparência externa. A pedra parece ser simples e comum, e portanto as pessoas do mercado a julgaram sem valor.”

“Entretanto, há muito mais nessa pedra do que parece. Na realidade, é um diamante de tamanho e qualidade extraordinários. Poucas pessoas tem a capacidade de reconhecê-la pelo que realmente  é. As pessoas do mercado não possuíam essa habilidade.”

“Mas Mestre, o atendente que queria que eu saísse também não a reconheceu, apesar de trabalhar numa joalheria.”

“Estar na joalheria não é garantia de possuir um conhecimento real. Ele provavelmente sabe o valor de todas as gemas da vitrine, porque estão todas cuidadosamente empacotadas e claramente marcadas. Mas quando o assunto é reconhecer um verdadeiro diamante em seu estado bruto... bem, ele não tem capacidade maior do que uma pessoa comum.”

“E sobre o gerente e o joalheiro? O que os faz diferentes do atendente e das pessoas do mercado?”

“O gerente suspeitou que pedra pudesse ser valiosa, porque tem anos de experiência com todos os tipos de pedras preciosas. O joalheiro tem ainda mais experiência, pois dedicou décadas de sua vida para se tornar um perito em gemologia. É por isso que ele não suspeitou – ele sabia o valor real da pedra.”

Esta história não é sobre a pedra ou sobre o discípulo do sábio. É uma história sobre o Tao.

A pedra não parece nada de extraordinário à primeira vista, mas se for adequadamente cortada e polida por um especialista, o diamante revelará toda sua brilhante glória. Analogamente, o Tao freqüentemente parece ser uma coisa simples e comum, mas quando um verdadeiro mestre expressa ou explica uma verdade espiritual, o Tao revela sua brilhante beleza.

O mundo em que vivemos é parecido com o mercado, que só cuida de transações monetárias – regatear, comprar, vender. O mundo é também um  lugar opressivamente materialista, preocupado com a aquisição de bens materiais etiquetas de preço.

Os verdadeiros mestres do Tao são poucos e aparecem raramente, portanto a maioria das pessoas tem pouco conhecem e pouco valorizam o Tao. Na história, isto pode ser visto na reação das pessoas ao jovem discípulo. Apesar da pedra ser realmente muito valiosa, as pessoas a encaravam com indiferença e mesmo com aversão.

O capítulo 41 do Tao Te Ching descreve como diferentes tipos de pessoas encaram o Tao. 

As pessoas de nível alto ouvem sobre o Tao
E praticam de forma diligente
Pessoas médias ouvem sobre o Tao
E algumas vezes o seguem e outras o perdem
As pessoas de nível baixo ouvem sobre o Tao
E riem dele
Se não rissem, não seria o Tao

Os três níveis citados são de refinamento espiritual, e não tem nada a ver com as distinções usuais, como nível de educação, de inteligência, de classe social, senioridade, títulos e cargos.

As pessoas que possuem um nível de refinamento espiritual alto reconhecem as verdades espirituais quando as ouvem, pois estas ressonam profundamente nelas. Como na nossa história, esses indivíduos são raros, e nenhum apareceu no mercado.

A maior parte das pessoas do mercado ainda estavam a uma longa distância desse nível. Estavam acostumadas a tratar de coisas que podiam ver e tocar, como os bens tangíveis do mercado. O Tao intangível chegou sem  embalagem colorida, posters promocionais ou um preço que pudesse ser negociado; era uma coisa que não podiam compreender.

Também havia pessoas que riram do Tao. Geralmente, estas são as pessoas com o menor grau de refinamento espiritual. Como vemos na descrição feita por Lao Tzu, é como se ele estivesse se referindo diretamente sobre as pessoas que encontramos e que consideram a espiritualidade do Tao como “esquisita”. Alguns chegam mesmo a expressar desdém e ironia: “Tao? Essa coisa New Age?”

Elas encaram o Tao dessa forma por confundir preço com valor, como é comum no mundo material. A hipótese é que qualquer coisa com preço alto tem automaticamente muito valor, portanto alguma coisa sem preço não deve ter valor.

É exatamente o que o sábio observou na história: a maioria das pessoas se baseia na aparência externa para estabelecer seus juízos de valor. A pedra não parecia nem um pouco impressionante, e foi descartada como sem valor. Apenas os olhos mais perspicazes puderam ver através da superfície  e reconhecer o diamante.

Se o mercado representa o mundo em geral, a joalheria representaria uma instituição religiosa, como um templo ou igreja.

Numa joalheria, artesãos cortam e fazem o polimento de pedras preciosas, e as apresentam de forma conveniente para os compradores. Analogamente, uma instituição religiosa toma conhecimentos espirituais, organiza-os e formaliza-os, e os apresentam para os que procuram a espiritualidade.

Os anéis e gemas na vitrine da joalheria representam as doutrinas religiosas empacotadas que encontramos diariamente. Os Dez Mandamentos, as Quatro Nobre Verdades, o Caminho Óctuplo... São usualmente reconhecidos e considerados como valiosos, porque estão claramente etiquetados como tal, da mesma forma  que as gemas com as etiquetas informativas e especificação do valor.

Costumamos ter a tendência a presumir que as pessoas em um templo tem conhecimento sobre o Tao, mas como vimos pelo exemplo dos atendentes, nem sempre é assim. O nível de conhecimento dos atendentes pode ser limitado a apenas o que pode ler nas etiquetas – o nome do produto e seu preço. Da mesma forma, uma pessoa num templo pode conhecer apenas as doutrinas básicas, e muito pouco mais. 

Expostas a uma verdade espiritual, as pessoas nesse nível terão muita dificuldade em reconhece-la. Podem até rejeitá-la completamente sem a devida consideração, como vimos na história quando o atendente tentou expulsar o discípulo.

O gerente da joalheria representa alguém com um nível maior de compreensão. É uma pessoa que dedicou tempo e esforço estudando o Tao, e este estudo adicional o elevou acima dos níveis mais baixos, onde as pessoas podem recitar frases e regras sem uma compreensão real dos ensinamentos espirituais por trás delas.

Apesar do gerente parecer possuir a autoridade sob o ponto de vista dos atendentes, ele  empalidece em comparação com o joalheiro. O gerente conhece muito sobre pedras preciosas, mas seu conhecimento deriva basicamente de livros de gemologia e trabalho com produtos acabados. Seu conhecimento baseado nos livros pode parecer convincente à primeira vista, mas quando confrontado com alguma coisa não descrita em seus livros, tem de recorrer ao joalheiro para ajuda e esclarecimento.

O joalheiro representa o nível mais alto de conhecimento. É um verdadeiro mestre, porque sua fonte primária de conhecimento não está em livros. Aprendeu a partir da prática diligente, trabalhando diretamente com as pedras preciosas desde seu estado mais bruto até os brilhantes anéis, colares e outras jóias.

Podemos concluir que a ação é o elemento crítico que separa um verdadeiro mestre do Tao daqueles que possuem apenas conhecimento livresco. Os verdadeiros sábios não se satisfazem em ler sobre o Tao, mas o cultivam através da experiência direta.

Da mesma forma que o joalheiro corta e faz o polimento de forma que as gemas fiquem disponíveis para o público, o verdadeiro mestre do Tao estuda, contempla, disseca e expõe verdades espirituais de forma que pessoas de nível menor possam compreender o Tao com maior facilidade,

Considerando que Tao é simplesmente um termo genérico para a espiritualidade, podemos concluir que os grandes mestres do passado – Jesus, Buda, Lao Tzu e muitos outros – foram realmente mestres joalheiros. Eles observaram a beleza contida numa pedra preciosa bruta chamada Espiritualidade. Eles puderam ver essa beleza, mas como a maior parte das pessoas não pode, trabalharam para mostrá-la de uma forma que todos pudessem apreciar.

O papel de mestre não está limitado a essas grandes figuras da história. Por exemplo, há muitos escritores que podem tomar uma grande verdade espiritual e explicá-la de uma maneira simples e fascinante. São também joalheiros. Quando você lê um livro particularmente bom, que abre seus olhos sobre a vida, você se encontrou face a face com trabalho de um mestre joalheiro.

O que tudo isto nos diz a respeito do valor do Tao? A resposta depende do nível do indivíduo.

Num nível mais baixo, as pessoas do mercado não podem responder, porque realmente não sabem. Os atendentes e o gerente podem lhe dizer o preço de qualquer peça de joalheria da loja, mas o fato é que também não sabem o valor da pedra.

O joalheiro concluiu que a pedra não era menos valiosa porque estava num estado bruto. Na verdade, isto a tornava mais valiosa que qualquer jóia pronta, porque poderia cortar muitos diamantes de tamanhos diferentes a partir dessa pedra.

Este era o valor real da pedra, mas qual é o valor real do Tao?

Na história a pedra não foi vendida. Por que não?

Porque não estava a venda, como o discípulo disse para todos. Apenas o sábio compreendeu que o valor da pedra era maior que qualquer soma em dinheiro. A pedra não era uma mercadoria que se pudesse negociar no mercado.

Na perspectiva da joalheria, a pedra estava associada a um certo valor que estaria disposta a pagar; na perspectiva do sábio não era possível regatear, comprar ou vender, simplesmente porque a pedra não tinha preço. Não poderia ser adquirida por qualquer quantia em dinheiro. Ao contrário de todos os anéis da joalheria, não tinha uma etiqueta com preço.

O Tao está além do preço. O Tao é de valor inestimável.

E este é o verdadeiro valor do Tao!