Vivendo o Tao

A bomba de água

por Derek Lin

No fim do capítulo 51 do Tao Te Ching, encontramos estas intrigantes linhas:

Produz mas não possui
Age mas não ostenta
Alimenta mas não domina
Isto é chamado de virtude mística

Estas linhas mostram como o Tao opera em nosso plano de existência.

  • Embora o Tao seja a fonte de tudo, não é possessivo em relação a nada.
  • Embora os processos do Tao estejam ativamente engajados no funcionamento do universo, não ostenta os maravilhosos resultados que atinge.
  • Embora o Tao nutra todas as coisas vidas através do milagre da vida, não faz nenhuma tentativa de controlá-las ou de dominá-las.

Estas descrições parecem bastante claras, mas não é obvio porque devemos usar a denominação de “virtude mística”. O que Lao Tzu descreve não parece difícil de compreender ou particularmente misterioso. O que há de místico?

A essência da virtude mística que abrange todas as descrições é que o Tao se dá sem nenhuma expectativa.

Apesar do Tao não esperar recompensas ou reconhecimento de qualquer tipo, no meio do capítulo encontramos o seguinte texto:

Portanto todas as coisas respeitam o Tao e valorizam a virtude
O respeito ao Tao, o valor da virtude
Não são devidos a uma ordem mas à sua própria natureza

Assim, o Tao é reverenciado mesmo que não tendo  expectativas ou exigências de tratamento especial. Por exemplo, o Tao se manifesta em todos os seres viventes como vida, e todos os seres viventes valorizam muito a vida que possuem. Isto não é devido a uma ordem, mas devido a ser a coisa natural a fazer.

Pode-se começar a perceber o significado mais profundo deste capítulo quando tomamos esta visão macroscópica de Lao Tzu e a aplicamos a nossos relacionamentos com outras pessoas. O que aconteceria se emulássemos o Tao nos dando aos outros sem expectativas quanto ao retorno? Este capítulo sugere que seriamos amplamente recompensados, mesmo sem esperar nada.

Além disto, Lao Tzu afirma que isto ocorre naturalmente, porque é um princípio que opera segundo as leis da natureza. Seus resultados são consistentes, previsíveis e completamente garantidos.

Este conceito pode ser apresentado com grande clareza através da seguinte história:

Era uma vez um homem que se perdeu no deserto. A água em seu cantil tinha acabado há dois dias, e ele estava no fim de sua resistência. Sabia que morreria se não conseguisse água logo.

O homem viu uma cabana à sua frente. Apesar de ter pensado que poderia ser uma miragem ou alucinação, dirigiu-se para ela por não ter outra opção. Ao se aproximar verificou que a cabana era real, e arrastou-se para ela utilizando suas últimas forças.

A cabana não estava ocupada, e parecia estar abandonada há bastante tempo. O homem entrou, esperando, sem muita convicção, encontrar água lá dentro.

Ficou exultante quando viu uma bomba de poço na cabana. Um cano saia dela para o chão, provavelmente para uma mina subterrânea.

Começou a acionar a bomba, mas nenhuma água saiu. Insistiu um pouco mais, e nada aconteceu. Exausto e frustrado, desistiu. Levantou as mãos em desespero. Parecia que ia mesmo morrer.

Viu em seguida uma garrafa num canto da cabana. Estava cheia com água, e arrolhada para evitar a evaporação.

Abriu a garrafa e estava a ponto de beber a água que salvaria sua vida, quando viu um pedaço de papel preso nela, onde estava escrito “Use esta água para escorvar a bomba. Não se esqueça de encher a garrafa ao terminar.”

Ficou em dúvida. Poderia seguir a instrução e colocar a água na bomba, ou poderia ignorá-la e simplesmente beber a água.

O que fazer? Se pusesse a água na bomba, que garantia tinha de iria funcionar? E se a bomba estivesse com defeito? Se o cano estivesse furado? E se a mina tivesse secado?

Mas, e se a instrução estivesse correta? Deveria arriscar? Se estivesse errada, seria a última água que veria na vida.

Com as mãos tremendo, colocou a água na bomba. Fechou os olhos, fez uma curta oração e começou a operar a bomba.

Ouviu um ruído gorgolejante, e a seguir a água saiu num jorro, muito mais do que precisava. Bebeu a vontade da água gelada e refrescante. Iria viver!

Depois de beber, passou a se sentir muito melhor. Examinou melhor a cabana, e encontrou um lápis e um mapa da região. O mapa mostrava que ele ainda estava muito longe da civilização, mas ao menos agora ele sabia onde estava e qual a direção a seguir.

Encheu seu cantil para prosseguir sua jornada. Não esqueceu de encher e arrolhar a garrafa. Antes de sair da cabana, acrescentou uma observação abaixo das instruções: “Acredite, funciona.”

Esta história é um retrato da vida. Nos ensina que devemos dar antes de receber em abundância. E ainda mais importante, também ensina que a fé tem um papel  importante no dar. O homem não sabia se sua primeira ação seria recompensada, mas foi em frente assim mesmo. Sem saber o que esperar, agiu num ato de fé.

Nesta história, a água representa as coisas boas da vida. Pense nela como uma energia positiva, ou alguma coisa que traga um sorriso à sua face. Pode representar objetos materiais ou qualidades intangíveis. Pode representar dinheiro, amor, amizade, felicidade, respeito ou qualquer outra coisa que valorize. O que quer que você deseje obter da vida, isto é a água.

A bomba de água representa o funcionamento do mecanismo cármico. Dê-lhe alguma água para funcionar, e ele retornará com mais do que você colocou. Este mecanismo traça um grande circulo, um caminho contínuo que, ao final, volta ao ponto de origem. A energia dessa circulação aumenta com o movimento, de modo que fica muito amplificada quando finalmente retorna.

Se o ciclo fosse um fenômeno físico, como a órbita dos planetas ou o ciclo das estações, poderíamos seguir seu caminho, observar o seu progresso e prever quando o ciclo estaria completo. Não podemos fazê-lo com o mecanismo cármico, que é metafísico por sua natureza. O carma tece seu movimento para dentro e para fora do mundo físico com a maior facilidade, e assim que sai do mundo físico desaparece de nossa vista.

É por isto que não podemos ver, na maioria das vezes, a conexão entre causa e efeito. Se você faz uma boa ação e recebe uma recompensa imediata, a relação cármica é fácil de compreender. Neste caso, o círculo foi relativamente pequeno.

No caso mais freqüente o círculo é tão grande que não conseguimos acompanhá-lo. Talvez você tenha feito uma boa ação da qual ninguém saiba, de forma que poderá assumir que não haverá qualquer efeito associado a esta causa em  particular. Na verdade, você iniciou um mecanismo cármico no domínio espiritual. Não se pode vê-lo, mas ele está lá da mesma maneira, e começa imediatamente a reunir energia e a procurar o caminho de volta para você.

Em algum momento do futuro este carma positivo invisível emergirá no mundo material para continuar seu caminho circular até você. Quando isto acontecer, tudo parecerá como surgido do nada; parecerá um efeito sem causa. Poderá até surpreender-se que uma coisa tão boa possa ter vindo de uma direção tão inesperada, sem tomar consciência  que na verdade você é a causa original.

Podemos agora começar a compreender porque  Lao Tzu chama a este processo de “virtude mística”. Seu funcionamento é realmente místico e misterioso. Se emularmos o Tao e criarmos uma energia positiva – dando de nós – sem expectativas, o universo retribuirá da mesma maneira, numa escala muito maior. Isto continua a ser verdade mesmo que não possamos ver a conexão entre o que demos originalmente e o que recebemos depois.

Se achar que isto é difícil de aceitar, lembre-se do conceito básico de que um nível fundamental da realidade todas as coisas são interconectadas. Não existe uma separação verdadeira ou limites claramente definidos entre quaisquer coisas. Considerando esta idéia, a virtude mística já não parece tão estranha como antes. Tudo é parte da unidade que chamamos Tao. A separação que observamos no mundo material não é mais que uma ilusão.

Como já destacado anteriormente, o homem escorvou a bomba sem saber se seu esforço seria recompensado ou não. Da mesma forma, quando emulamos o Tao e auxiliamos outros, agimos sem esperar recompensas de qualquer tipo.

Lembro-me de uma situação, há muitos anos, quando uma amiga reclamava que ela estava sempre dando, e nada recebia em troca. Estava amarga e frustrada.

Não podia compreender seu problema na época, mas agora o vejo com clareza cristalina. Quando ela dava, fazia-o com expectativas e com sentimentos de ressentimento. Dois caminhos seguros para destruir o mecanismo cármico. Ela não compreendia o princípio

Os mestres do I Kuan Tao são exemplos vivos de como utilizar este princípio de uma forma positiva. Não recebem salários, como a maioria dos religiosos de outra religiões, nunca pedem doações e freqüentemente usam seu próprio dinheiro para custear as despesas do templo. Apesar disso, nunca estão em dificuldades financeiras. Dão sem condições, e o universo responde com riqueza e abundância.

O princípio aplica-se a tudo, não somente a dinheiro. Por exemplo, para obter respeito dos outros, deve-se começar dando-lhes o devido respeito, sem  rodeios ou falsidades.

Quer obter maior reconhecimento pelo seu trabalho? Comece por reconhecer as realizações de todos à sua volta. Quando aceitar sinceramente que os outros merecem reconhecimento, a estima deles por você crescerá como que por mágica.

Gostaria de ter mais amizade em sua vida? Comece por ser mais amistoso. Não espere nada em troca, e ficará agradavelmente surpreso pelo mar de boa vontade e amizade que encontrará em seu caminho.

Gostaria que as pessoas visse m beleza em você? Comece a ver a beleza nos outros. É fácil de perceber quando você presta atenção. Cada um a sua volta possui uma beleza intrínseca que está além do aspecto físico. Quando puder vê-la, começar a apreciá-la e se maravilhar, ocorrerá uma transformação. Você se tornará realmente bonito.

De forma geral, o que quer que deseje da vida, comece por dar aos outros primeiro. Dê alegremente e de boa vontade, sem calcular ganhos e perdas como se estivesse fazendo um cálculo financeiro. Inicie a troca circular, e descanse sabendo que o processo do Tao não engana ninguém.

Neste ponto você pode estar se perguntando se isto não é um paradoxo. Sabendo que seremos amplamente recompensados por criar algo positivo no mundo, não teremos aqui uma expectativa? E a expectativa não destruirá o processo?

Como uma metáfora para o mecanismo cármico, considere o plantar sementes de flores em um jardim. Cada semente que plante é um processo colocado em movimento. Você compreende os princípios que governam o crescimento das plantas, e se souber que o solo é fértil, saberá que verá resultados no devido tempo. Não sabe exatamente quando ou quais flores florescerão, e isto é inteiramente adequado.

Ter expectativas neste contexto significaria ficar apegado a um resultado especifico. Se insistir que o florescimento ocorra em uma determinada data ou de uma determinada forma, ficará certamente desapontado. Se em sua obsessão ficar observando apenas uma particular flor crescer, estará neglicendiando o resto de seu jardim.

Com o carma acontece exatamente a mesma coisa. Você inicia a energia positiva sem saber exatamente onde ou como os efeitos se manifestarão. Como conhece o mecanismo cármico, conclui que resultará em algo bom para você, cedo ou tarde. Entretanto, como não tem apego a nenhum resultado em particular, também não tem expectativas específicas.

Destaquemos o papel da fé em tudo isto. Da mesma forma que sabemos que o solo do jardim é fértil, temos fé na benevolência básica do universo. O Tao nos nutre e nos protege. Num sentido bem real, o mundo deseja que tenhamos sucesso.

Tudo o que precisamos é ter a coragem de assumir a responsabilidade e escorvar a bomba de água.

Acredite, funciona!